quinta-feira, 14 de março de 2013
O teatro amordaçado
Em 1984 teve fim um dos períodos mais conturbados da história do Brasil, a ditadura militar. Até hoje restam vestígios e traumas entre os que viveram o período, mas foi um tempo em que, mesmo com a censura, a cultura brasileira não deixou de criar. De certa forma, a arte se tornou um instrumento de denúncia da situação política do país.
A música, o teatro, o cinema, e a literatura, entre outras formas artísticas, eram canais de expressão de uma juventude atormentada. Havia sempre a sombra militar pairando acima de tudo. O interesse dos artistas pela inserção de posições políticas nos trabalhos artísticos, sempre encontrava um empecilho: a censura militar.
Em 1968, no plano cultural, o Ato Institucional Número 5 (AI-5) oficializou a censura prévia, repercutindo negativamente sobre as produções artísticas e gerando muita polêmica.
Assim como em todo o Brasil, Belém também teve sua contracultura local. Onde ela se expandiu de forma mais significativa foi no teatro. O ator e diretor Claudio Barradas vivenciou esse período e ressalta que o clima era sempre desagradável com a censura. “O governo forte queria mostrar no Brasil o rosa e o azul, onde tudo era perfeito. É como se você visse que vem uma visita na sua casa e, como você é preguiçoso, não quer varrer, pega o lixo e põe debaixo do tapete”, compara.
Para que os espetáculos fossem realizados, Barradas lembra que sempre deveria ser entregue o roteiro da peça na Polícia Federal em Brasília. “Como tudo era centralizado lá, o texto às vezes demorava cinco meses para ser liberado. Já pensou o elenco passar cinco meses sem fazer uma peça? Um horror”.
Se o texto fosse liberado, voltava com os devidos ajustes, e o elenco era obrigado a apresentar um ensaio prévio para dois censores enviados pela polícia militar.
Em 1967, Claudio Barradas chegou a trabalhar na parte teatral do SESI. Ele e o elenco da época encenaram uma peça chamada Antígona, adaptada de um texto famoso de Sófocles. Geraldo Salles foi quem dirigiu o trabalho, encenado nas escadarias do Teatro da Paz, como se fosse a do Palácio de Thebas onde se passou a história. “Eu fiz a coisa se passar na Grécia antes de Cristo, mas eu queria falar da falta de liberdade em nossa arte”, diz. Houve intriga da censura com o cenário e com o visual do elenco. “Na supervisão do texto, foi engraçado que os censores queriam saber onde morava o tal do Sófocles”, afirma Barradas, sorrindo ao lembrar-se da situação cômica.
Barradas também dirigiu uma peça de oposição ao governo de Castelo Branco, no início do período ditatorial, chamada “Show da verdade com cantoria e razão”. A peça era patrocinada pelo Diretório Acadêmico de Engenharia da União Acadêmica Paraense (UAP), mas na semana de realização do espetáculo a Policia Federal fechou todas as casas de espetáculo em Belém. O grupo não desanimou. E decidiu que a peça seria realizada na sede do Sindicato dos Motoristas conseguida pelo apoio da UAP, porém, as forças armadas interditaram toda a rua.
“Quando eu cheguei lá tava uma confusão e me falaram: ‘Barradas, vai embora pra tua casa que não vai mais ter espetáculo’, então eu fui”. No dia seguinte, soube através de um amigo que o show, na verdade, foi realizado. Até o atual governador Simão Jatene participou, já que fazia parte do elenco e na época era músico.
O também diretor teatral Geraldo Salles também vivenciou com intensidade esse período. Assim como Claudio Barradas, sofreu represálias impostas pela censura ditatorial às manifestações artísticas. O grupo de teatro chamado Gruta chamou Salles para montar um espetáculo chamado ‘Os perigos da bondade’, que foi inteiramente censurado após uma denuncia de alguém da própria classe teatral. O diretor chegou a ficar um dia inteiro detido na Polícia Federal, e nessa ocasião conheceu o chefe Raul Moreira que disse a ele; “Nós sabemos da sua vida e que você andou me chamando de nazista. Se eu sou nazista, você é comunista e outras coisas”.
Raul Moreira também assombrou a vida artística de Claudio Barradas. Em uma confusão na realização da peça Antígona, Barradas teve que passar um dia inteiro na Polícia Federal para prestar depoimento. Foi lá que conheceu o chefe Raul. Mas Claudio foi surpreendido ao entrar na sala do policial e ouvir um ‘sou seu fã, você é um ator genial’. “Ele disse que tinha me assistido em um espetáculo e que tinha gostado muito, nós conversamos um pouco e ele me dispensou dizendo que eu não devia lhe dar mais trabalho”, conta.
No começo dos anos 70, outro grupo teatral ganhou espaço em meio ao caos do cenário ditatorial. Nascia o grupo Experiência, hoje com mais de 40 anos, que tinha em seu elenco alguns grandes artistas paraenses como Natal Silva, Yeyé Porto, Cacá Carvalho, Fafá de Belém, Geraldo Salles, entre outros. Uma das primeiras produções do grupo foi o espetáculo “Happening”. “Happening significa um acontecimento, ou seja, uma incomunicabilidade do homem por causa do sistema, em que a palavra acaba não tendo sentido e o homem acaba retornando ao útero materno”, conta Geraldo. O espetáculo sofreu censura na música, no texto, e no figurino do elenco, mas apesar de tudo conseguiu ser realizado.
“Os espetáculos eram mais inteligentes e criativos, pois a gente tinha que passar a ideia de forma subjetiva, nas entrelinhas, e com cuidado para que os militares não percebessem. Acho que foi uma época extremamente criativa”, diz Geraldo Salles. “Um dos males da censura é que a censura exterior gera a autocensura. Por outro lado ela provoca a criatividade, e isso é ótimo para nós”, concorda Barradas.
As artes organizadas em forma de atuações públicas criticavam o amordaçamento coletivo promovido pela ditadura militar. Com isso, ao longo dos anos de resistência os artistas assumiram uma posição de marginalidade, ora agravando o conflito com a censura, ora fugindo para o exterior para continuarem vivos. As questões das manifestações naquele período significaram a luta árdua, pela sobrevivência e pela independência do artista. “Eles queriam saber até os nossos mais secretos pensamentos”, resume Claudio Barradas.
Por Wanessa Aires e Luã Newbery.
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1 comentários:
Povo, tá lindo o blog. sei que é papo estranho, mas estou bem orgulhoso do que vcs se propuseram a fazer...não deixem o espaço esmorecer...
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