(Foto: VEJA)
A ossada encontrada pelo Grupo de Trabalho do Araguaia (GTA), na última expedição realizada em 2012 reacendeu as esperanças de novas respostas à questão da localização dos militantes da Guerrilha do Araguaia, cujos corpos estão desaparecidos desde o fim do conflito nas matas da região na metade da década de 1970.
Com mais essa descoberta já somam 17 ossadas encontradas pelo grupo desde o início das buscas, em 2009, quando o GTA foi criado para dar cumprimento à decisão da Justiça Federal de Brasília que determina a localização e identificação de corpos dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia.
Em 2009, quando os trabalhos eram coordenados pelo Exército, foi encontrada apenas uma ossada. Outra foi achada no ano seguinte. Já em 2011, quando as buscas deixaram de ser coordenadas pelas Forças Armadas, a quantidade subiu para cinco. Nessa última expedição foram encontradas nove ossadas, número bastante significativo tanto para o GTA quanto para os familiares dos guerrilheiros desaparecidos.
Os restos mortais encontrados esse ano foram localizados num antigo cemitério em São Geraldo do Araguaia. A expedição durou 12 dias e percorreu os municípios de Xambioá e São Geraldo do Araguaia. Todo o material recolhido será encaminhado à Brasília e passará por análises periciais. O processo de identificação das ossadas é muito demorado. Até hoje, apenas duas ossadas foram identificadas, a dos militantes políticos Bergson Gurjão e Maria Lúcia Petit . “A identificação é muito demorada. Só para retirar pode levar um mês, e para identificar pode levar um ano”, diz Paulo Fonteles Filho, membro do GTA e da Comissão Nacional da Verdade.
Antes da atuação do GTA, era o Exército quem comandava as buscas. Durante a liderança do Exército nas expedições somente três ossadas haviam sido encontradas, uma em 2009 e duas em 2010. Segundo Paulo Fontelles, “o Exército atrapalhava as buscas, os camponeses nos indicavam um local, mas o Exército indicava um local 50 metros após a localização dada pelos camponeses”.
Agora, com a atuação do GTA, o trabalho de busca pelos corpos dos desaparecidos tem progredido. Ex-soldados que participaram na Guerrilha tem contribuído gradativamente com informações a respeito das localizações dos corpos. Somente após mais de 40 anos do fim do conflito é que tanto ex-soldados quanto os camponeses e até mesmo índios, que de certa forma foram atingidos, começaram a falar sobre o que verdadeiramente ocorreu naquele período.
Mais buscas estão sendo organizadas para 2013. A intenção do GTA é localizar 14 desaparecidos políticos no cemitério da Saudade, em Marabá.
Guerrilha do Araguaia
A Guerrilha do Araguaia foi um agrupamento de militantes contrários à ditadura militar que acreditavam que a revolução socialista só teria sucesso se acontecesse no interior rural do Brasil.
Os militantes, na maioria membros do PCdoB, escolheram a região no sul do Pará, nas divisas entre o Maranhão e Tocantins. A área, de aproximadamente 7.000 km², foi palco de treinamentos e ações dos militantes, que pegaram em armas e criaram um esquema paramilitar para realizar suas operações.
Entre 1972 e 1975, a Guerrilha do Araguaia foi alvo de uma grande ação do exército, que queriam reprimir e acabar com o movimento.
Durante as ações militares, os agentes de repressão da ditadura teriam cometido graves violações aos direitos humanos, como prisões ilegais e execuções de guerrilheiros e moradores locais, condenados como “colaboradores”.
Buscas por desaparecidos políticos
A busca pelos corpos dos desaparecidos políticos não tem sido uma tarefa fácil. O Estado Brasileiro e as Forças Armadas nunca deram pleno acesso aos documentos que continham informações relevantes sobre o que ocorreu na região do Araguaia.
“O Exército diz que destruiu todos os documentos, mas eu tenho dúvidas em relação a isso. Acho que alguns desses documentos estão escondidos nas casas de militares”, diz Paulo Fontelles.
Segundo ele, muitos desaparecidos políticos estão enterrados em cemitérios como indigentes. Nos últimos dois anos, as ossadas encontradas estavam sepultadas em cemitérios, tanto em Xambioá quanto em São Domingos do Araguaia. Outros corpos foram queimados até não restarem mais nada deles.
Conseguir a informação que contenha a localização de determinada ossada é o primeiro passo a ser seguido. Depois os técnicos vão até o local indicado e fazem uma espécie de “ultrassonografia” do solo, utilizando um aparelho chamado GPR. Só então é que se faz a identificação das ossadas. Para isso é preciso fazer análise de DNA, o que pode levar em torno de três meses para ser feito.
A identificação das ossadas é um processo muito trabalhoso devido ao clima da região. “A região amazônica também não colabora na identificação das ossadas. O solo amazônico, além de arenoso, é muito úmido, o que destrói facilmente as ossadas. Algumas são quase impossíveis de serem identificadas, e nós também nem podemos contar com a ajuda de quem matou e enterrou os militantes”, diz Fonteles.
Por Vanessa Lago.